Arqueologia do Futuro

Luciana A. Lumyx



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por Luciana A. Lumyx
PARA ASSISTIR AO VÍDEO de apresentação do conceito do projeto, digite a senha: artelumyx 

Como artista não vejo como separar o contexto histórico no qual estamos mergulhados do universo particular de onde se extrai e produz objetos artísticos. Cidadã de um mundo-aldeia global, sou tomada por notícias de jornal e tv, “memes” que se espalham na internet, o bombardeio de imagens, guerras, acidentes, misérias, eventos pop e descobertas fascinantes da ciência – fatos distantes (?) – que invadem nossa história pessoal. Tudo isso me afeta: são pequenos cotidianos familiares, cristalizando ícones do inconsciente coletivo na memória afetiva e provocando sentimentos controversos de urgência, pertinência, fascínio e impotência diante da beleza e do caos humano.

VEGETRONICS“| Instalação audio-visual para a exposicão ARQUEOLOGIA DO FUTURO: escultura + ciclorama e projeção (abaixo)

Instalação © VEGETRONICS - by Luciana Lumyx(acima: simulação para o projeto da instalação)

Neste momento, é a necessidade de mitigação deste “ruído” que me interessa como tema de exploração e projeto artístico: uma forma ritualística pessoal de exorcizar a sensação de ser testemunha e agente de um salto qualitativo da história humana, talvez tão marcante quanto a Revolução Industrial: a Revolução Digital – a era da informação – cuja ferramenta catalizadora e exponencial é o computador.

Díptico “WAR GAMES” (abaixo)

 

HACKER” [War Games I] – (estudo para tela)


SPACE INVADERS” [War Games II]       (estudo para tela)

O chip. O chip inserido no DNA. Paradigmas são quebrados, valores éticos se modificam e a civilização se reorganiza, plena de contradições na convivência do high-tech e do arcaico low-tech, do oriente e ocidente, do ser online ou offline, da canibalização desordenada dos recursos da natureza provocada pelo consumo imperativo, o conforto e seu substrato – o lixo, os restos, a poluição. É hora de refletir.

Respostas civilizatórias: contraste e convivencia planetearia do hightech e low-tech.

CHUVA ÁCIDA/ A NUVEM

Chuva Acida [by Lumyx]

Acrílica, ecoline, grafite, papel e placas de circuito recortada sobre tela.

 

Deste processo de reflexão sobre arte, tecnologia e mal-estar na civilização – ou no “progresso” – ocorreu-me fazer um paralelo sobre hominídios pré-históricos e seus desenhos simbólicos por essência: até que ponto os registros rupestres, aliados a seus objetos e ferramentas nos levam a compreender aquele tempo, à luz da arqueologia? Na tentativa de vislumbrar o zeitgeist da vida contemporânea foi-me preciso criar um distanciamento: tentar olhar nosso presente como se estivéssemos alguns séculos à frente no futuro.

EX-MACHINA

Voltando então ao século XXI, algumas imagens conceituais da série “Arqueologia do Futuro” surgiram desse exercício de compreensão. Quais seriam os despojos materiais  icônicos do nosso tempo? Na minha leitura, o papel da escrita – registro de nossa cultura – e os fragmentos de computador – nossa maior ferramenta e armadilha – poderiam ser pistas arqueológicas. E sobrepondo-se a essas camadas, um traçado humano, a narrativa essencial e simples como mera crônica ritualística, um testemunho poético - como pintura rupestre – de uma representante da tribo urbana nascida na segunda metade do século passado.

Kids_secXXI

Na cybercultura e seu fluxo de movimento “civilizatório”, valores fundamentais são soterrados e jazem no inconsciente de todos nós, aguardando um resgate arqueológico. Por detrás de todos estes sintomas, quais seriam nossos verdadeiros anseios, aqueles que ficariam gravados na filosofia do nosso tempo como “o eldorado”, a busca primordial? O que povoa nossa memória, nossos sonhos e afetos, nosso inconsciente coletivo? Quais desses valores serão soterrados por novas camadas arqueológicas de civilização, e quais sobreviverão?

TELEKIDS
TELEKIDS by Lumyx

Nesta equação reunem-se virtudes e vícios, grandeza e a mesquinharia; intensa beleza e miséria. Surgem as questões de nossa sociedade contemporânea: nas engrenagens da comunicação de massa, são criados novos desejos de consumo, embalados pelo culto às aparências e suas facetas de beleza, status e poder. No reverso, nascem manifestações de frustração, impotência e violência. A natureza humana é contraditória, o “homem-máquina” é selvagem. Na expressão deste conceito me interessa explorar o contraste material da tela clássica e dos recursos digitais; os materiais industrializados e eletrônicos contrapostos à sensação de crueza do artesanal, do papel, da textura “terracota” e rústica.

O caminho se faz fazendo

Não é uma busca fácil. Exige tempo, esforço, paciência, reflexão e mão na massa. É um aprendizado, uma busca. Romper acomodações, explorar idéias, evoluir: estamos no caminho.

Luciana A. Lumyx